O vídeo mostra um jovem muito orgulhoso de seus músculos. Simulando uma aula de aeróbica, Rodrigo dança ao som de uma música eletrônica exibindo seu corpo que parece ter sido esculpido por um chargista sem limites. O trapézio nasce de seus ombros como um trabalho equivocado no Photoshop. Seu peito parece ter sofrido a ação do filtro spherize. Mas a desproporcionalidade não foi gerada digitalmente. Tampouco parece fruto de um esforço "natural".
Em outro vídeo, Rodrigo diz "não estar nem aí" para quem o acusa de tomar bomba. O que lhe importa é que "a mulherada gosta". E ameaça: "Se você facilitar eu pego sua mulher. Porque vocês são uns invejoso [sic]". Já seu perfil no YouTube traz a intrigante confissão: "SEM TREINAR MUSCULACÁO A 2 ANOS [sic], IMAGINA SE TREINASSE". Como então o rapaz consegue manter aquele corpo?
Não parece haver dúvida que boas doses de anabolizantes foram utilizadas. Ora, esse procedimento parece ser o caminho mais rápido para tal "modelagem" muscular. Mas o intuito deste post não é fazer mais uma alerta sobre os riscos do abuso daquelas substâncias. O que quero aqui colocar em discussão é a relação entre corpo, tecnologia e nossa época.
As indústrias culturais nos convenceram com o tempo que mulheres devem ser magérrimas como as modelos que estampam capas de revistas femininas. Rostos não podem ter rugas e sinais de expressão. Homens precisam ser malhados, mesmo que não sejam esportistas. Tal imposição midiática acabou desvinculando a estética da saúde. Que importa se uma garota está em processo de desnutrição se está contente por estar magra? Por que preocupar-se com um possível problema cardíaco, se hoje uma exagerada musculatura pode atrair meninas da academia? Nesse cenário, rapazes mais magros que sofrem com pequenos halteres são chamados de "frangotes".
Mesmo vomitando suas refeições, uma garota sente-se gorda no espelho. Por outro lado, encontra suporte e incentivo de parceiras em sites de Ana e Mia (siglas usadas para disfarçar sites com dicas de incentivo à anorexia e bulimia). Enquanto para ela um corpo esquálido é o objetivo, para ele músculos desproporcionais são o ideal estético. Ela evita comer, ele abusa de suplementos alimentares e injeções de anabolizantes. A primeira pensa que pode emagrecer ainda mais, o segundo acha que seu braço e peito poderiam inflar ainda mais.
Revistas femininas fazem circular anúncios que pregam um tipo estético que só pode ser alcançado via Photoshop. Cinturas menores que cabeças são exibidas em fotos que, apesar de seu caráter grotesco, incentivam garotas a buscar aquele ideal em seus espelhos. Já as "bombas" são receitadas e vendidas em academias por marombeiros que não possuem nenhuma formação nutricional ou em educação física. Tal como um caricaturista que exagera formas para gerar riso, os fisiculturistas/químicos criam protuberâncias em seus corpos esperando a admiração alheia.
A busca pela perfeição do corpo tem como meta o protótipo do físico midiático: corpos esquálidos siliconados que roçam em troncos inchados nos episódios de algum BBB. A "perfeição" nas revistas é alcançada digitalmente, mas aqui fora muitas técnicas analógicas nos ajudam a buscar a mesma estética: o vômito provocado para eliminar calorias; injeções de anabolizantes.
Precisamos reconhecer, a tecnologia nos ajuda a vencer deficiências. Cirurgias plásticas podem ajudar uma garota a ultrapassar certos traumas. Loções podem retardar a calvície. Sessões de laser tem o poder de eliminar manchas, apagar tatuagens mal feitas e depilar pelos indesejados. Próteses dentárias e aparelhos metálicos podem corrigir sorrisos. E a mais básica das vacinas pode fortalecer nossos corpos. Enfim, somos hoje todos ciborgues. Nossos corpos são modificados continuamente. E assim vamos lutando contra a finitude, mantendo-nos jovens enquanto podermos negar a velhice.
Mas isso pode parecer pouco para quem quer ter um corpo mais que perfeito. Rodrigo é uma prova disso. Ao dançar, bate em seus peitos inchados. Pretende mostrar força. Debocha de seus críticos e gaba-se de não fazer musculação. Por que o esforço se a química pode ser sua aliada? Para que tanto suor se o que importa é a imagem final?
Quem sabe as TV digitais e suas imagens de alta definição nos ajudem a lembrar que nossos ídolos tem peles manchadas, marcas de expressão e dobras nas cinturas. Talvez não. O detalhe real não contribui para a mitificação. Em breve novas técnicas serão desenvolvidas para borrar a alta definição. O que importa é a fantasia.





















